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Entidades brasileiras alertam sobre impacto de tarifa nos Estados Unidos e ameaça chinesa

O aumento das exportações brasileiras para a China em decorrência das possíveis novas taxas americanas foi um dos alertas levados por representantes empresariais brasileiros no segundo dia de audiências no Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês).

“Trouxemos esse argumento de que taxar o Brasil para máquinas e equipamentos possibilitaria que o país fosse deslocado e que quem pode ocupar [espaço] é a China. Outros setores também trouxeram esse argumento. Para alguns, apenas a China pode substituir, mas em outros, Índia e Coreia do Sul, por exemplo, também poderiam”, disse Patrícia Gomes, diretora-executiva de mercado externo da Abimaq, entidade que representa os fabricantes e esteve na audiência que tratou da recomendação feita em junho pela USTR de imposição de alíquota de 25% sobre parte das mercadorias importadas do Brasil por práticas comerciais que a administração americana considera “desleais”.

Segundo a Abimaq, questionamentos levantados incluíram se havia produção doméstica nos EUA do material exportado pela indústria brasileira e se ela era suficiente para atender a demanda americana. “Mas falamos da dificuldade de se substituir esse tipo de fornecimento de máquinas que fazemos, já que se tratam de produtos customizados feitos sob demanda e que atendem certificações extremamente rigorosas que são difíceis de serem obtidas.”

Para a indústria de calçados, ter o Brasil como fornecedor diversifica os embarques para os EUA com uma fonte de abastecimento ocidental “confiável”. Segundo a Abicalçados, entidade que representa o segmento, os EUA consomem mais de 2 bilhões de pares de calçados por ano e produz aproximadamente 20 milhões de pares, ou seja, cerca de 1% do consumo doméstico. Atualmente, a oferta para os americanos é liderada pela China, com 48% do total em termos de volume, segundo a entidade.

Tarifa adicional “tenderia a aumentar custos, reduzir a diversidade de fornecimento e reforçar a concentração das fontes de abastecimento dos EUA em origens já dominantes, indo na contramão dos interesses americanos em diversificação”, afirmou, em comunicado, Letícia Sperb Masselli, gerente de relacionamento e negócios da Abicalçados, que participou da audiência.

Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil e sócio do escritório Barral Parente Pinheiro disse que a audiência foi “bastante formal”. “O tema foi concentrado em documentos, em dados e em confirmação de dados, então bem mais técnica”, disse. O escritório do qual ele é sócio representou entidades como a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) e a Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics) nas discussões.

A Abimaq usou como argumento o fato de 82% das exportações do setor brasileiro de máquinas e equipamentos terem sido feitas entre empresas do mesmo grupo econômico em 2024, ou seja, aquelas que têm sede no Brasil e subsidiária nos EUA, ou vice-versa. Para a entidade, a taxação afetaria brasileiras que estão investindo em território americano e americanas investindo no Brasil. “Esse tipo de comércio complementa a produção americana”, afirmou Gomes.

Ela disse que o superávit comercial de US$ 1,2 bilhão dos EUA com o Brasil na balança comercial de máquinas e equipamentos do Brasil também foi mencionado.

Já a Abicalçados afirmou que “as explanações foram todas favoráveis ao Brasil, apontando, sobretudo, o impacto tarifário no país, que não possui produção significativa de calçados”, disse Sperb.

Outra fonte que participou da reunião disse acreditar que, com base na audiência, o governo americano deve apenas corrigir dados apontados pela indústria. “Claramente, o USTR basicamente vai corrigir algumas coisas que apontamos, mas a conclusão geral, provavelmente, vai ser a mesma [de impor tarifa], não sei se de 25%. Na verdade, o que depende agora é da negociação do governo brasileiro, porque a decisão final é do Trump”, afirmou.

No painel voltado ao café, o Cecafé, a Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics) e a National Coffee Association (NCA), dos Estados Unidos, defenderam manter a isenção da tarifa de 25% sobre os cafés verde, torrado e moído e estender o benefício ao café solúvel.

A Abics defendeu em sua apresentação que o produto é fundamental para diversos setores da economia americana, incluindo bebidas prontas para consumo, produtos de panificação, confeitaria, laticínios e serviços de alimentação institucional. A entidade citou estudos que apontam crescimento anual de 5,6% entre 2025 e 2030 no mercado americano de café pronto para consumo.

A Abics salientou a necessidade de garantir abastecimento estável e acessível de café solúvel. Segundo a associação, o Brasil responde por 22% das importações americanas de café solúvel. A tarifa adicional de 25% pressionaria as margens das empresas e a inflação no país, diz a entidade.

“México e Brasil respondem por quase 60% do total das importações, sendo que os preços mexicanos são cerca de 1,5 vez mais alto que os brasileiros”, afirmou Fabio Sato, diretor de relações institucionais da Abics e que participou da audiência.

O setor exportador de mel também participou das audiências na segunda-feira. O Brasil exporta em torno de 40 mil toneladas de mel orgânico por ano para os Estados Unidos, que não tem produção local dessa categoria de mel. O setor já está sujeito a uma taxa de importação de 12,5% e, com a sobretaxa de 25% proposta pela administração Trump, a taxação chega a 37,5%.

“O Brasil atende 75% da demanda, é o principal fornecedor de mel orgânico para os EUA”, disse João Marcelo Messas, diretor da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel). A Abemel estima que cada dólar de mel orgânico importado se transforma em US$ 5,50 em negócios para a economia americana.

Messas disse estar otimista com o andamento da investigação pelo USTR. “Cumprimos os prazos, respondemos os questionamentos de forma muito esclarecedora, que foi muito bem recebida pelo comitê que avaliou a gente”, afirmou.

Ele acrescentou que, além de ter o apoio durante a audiência do setor exportador brasileiro, empresas que estão sendo impactadas nos Estados Unidos também defenderam a isenção da tarifa de 25%. “Vejo com bons olhos tudo o que aconteceu, mas ainda sem garantia de que a gente vai ter uma definição a nosso favor.”

A indústria do arroz também participou do primeiro dia de audiências. Andressa Silva, diretora-executiva da Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz), disse que o ambiente na audiência foi receptivo.

“Falamos sobre os potenciais impactos sobre pequenas e médias empresas americanas que atendem ao nicho de comunidade latina, bem como toda a cadeia de valor envolvida de logística, transporte, armazenagem e o potencial aumento de custo para o consumidor americano.”

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que foi representada por Fernanda Maciel Carneiro, rebateu que o desmatamento ilegal está concentrado em uma área isolada e não representa a agropecuária brasileira. A CNA apresentou dados indicando que o desmatamento na Amazônia Legal reduziu 56% entre 2011 e 2025.

No segmento de biocombustíveis, o governo americano acusa o Brasil de prejudicar o comércio de etanol com aplicação de tarifas. A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) alegou que a tarifa brasileira sobre o etanol importado segue a regra de Nação Mais Favorecida da OMC e que não se trata de uma retaliação aos EUA.

A União Nacional do Etanol de Milho (Unem), por sua vez, defendeu que o etanol americano perdeu espaço no Brasil por causa do câmbio, dos custos logísticos e da expansão acelerada da indústria de etanol de milho no mercado doméstico.

O USTR tem até o dia 15 para tomar a sua decisão final.

Fonte: Valor Econômico