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Água e floresta plantada: polêmica em discussão

26 de novembro de 2010

A polêmica em torno dos prejuízos causados para os recursos hídricos pelas plantações de eucalipto e pinus é debatida em todos os países nos quais a silvicultura exerce importante papel na economia. Um estudo recente, resultado da iniciativa independente Diálogo Florestal, que busca facilitar a interação e a troca de conhecimento entre os representantes do setor socioambiental e os da indústria de base florestal, traz algumas respostas sobre a relação entre água e florestas. De autoria do professor Walter de Paula Lima, do Departamento de Ciências Florestais, da ESALQ/USP, “A Silvicultura e a Água: ciência, dogmas, desafios” faz uma análise cultural, científica e histórica a respeito dos vários aspectos que envolvem o assunto. “Do ponto de vista da ciência, os resultados acumulados de inúmeros trabalhos de pesquisa mostram que não existe, necessariamente, antagonismo nenhum entre uma coisa e outra”, resume o professor autor do estudo. Ele afirma que, do ponto de vista fisiológico do consumo de água, o eucalipto por exemplo, é uma espécie florestal absolutamente normal. De acordo com o professor, a opinião pública generalizada de que as florestas naturais, em todas as circunstâncias são sempre benéficas para os recursos hídricos, no sentido de que elas fazem chover, aumentam a vazão dos rios, reduzem enchentes e mantêm a qualidade da água é questionável e deve dar lugar à percepção moderna, baseada na experimentação científica. “Se trata de uma relação muito mais complexa, cujos resultados vão depender da interação de vários fatores e não apenas da presença ou ausência da floresta”, avalia Lima. Essa opinião é compartilhada pelo diretor executivo da Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal (APRE), Carlos Mendes, entidade que participa do Fórum Regional Paraná e Santa Catarina do Diálogo Florestal. “A floresta plantada bem manejada, contribui para a manutenção e a melhoria da água no sistema com um todo. Defendemos junto às empresas associadas a utilização cada vez mais crescente do manejo florestal em mosaico, que entremeia florestas plantadas com florestas naturais e o uso consciente dos recursos naturais”, afirma Mendes. A associação representa mais de 40 empresas no Estado, que, juntas, somam cerca de 70% da área ocupada com florestas plantadas no Paraná. Para o diretor executivo do Instituto BioAtlântica, Carlos Alberto Mesquita, também participante do Diálogo, “afirmar que as plantações florestais não necessariamente produzem danos não significa relativizar a questão das florestas, mas, sim, a das bacias hidrográficas”. Segundo Mesquita, o estudo mostra que cada bacia hidrográfica tem uma dinâmica própria, e a disponibilidade de água não é uma questão apenas de uso do solo, mas um conjunto de fatores, que inclui também as precipitações e o tipo de manejo aplicado às plantações, homogêneas ou não. “Também não é só uma questão de manejo, pois, dependendo das condições hídricas da área, às vezes, nem restauração florestal intensiva com espécies nativas é interessante”, complementa Mesquita, lembrando que todas as florestas em crescimento costumam demandar volumes maiores de água. Manejo adequado Para garantir a manutenção da quantidade e da qualidade da água, o pesquisador defende o manejo correto das plantações florestais e das outras atividades na propriedade rural. “Os benefícios ambientais das plantações vão depender crucialmente do plano de manejo, em termos da interação dos plantios florestais com os demais elementos da paisagem, desde a sua formação até a sua colheita”, afirma. O estudo diz ainda que o planejamento do manejo de plantações florestais deve levar em conta as limitações naturais do meio, em termos de disponibilidade natural de água e também das demandas já estabelecidas desse recurso, assim como em termos da ocupação dos espaços produtivos da paisagem. “O manejo das plantações de eucalipto tem que levar em conta essas particularidades e limitações ecológicas e hidrológicas. Pela mesma razão, também tem a mesma responsabilidade social e ambiental o manejo da soja, da cana, da laranja, do boi”, afirma o professor Lima. Monitoramento O professor alerta para uma peça-chave na busca do manejo florestal sustentável: o monitoramento, que, segundo ele, deve ser entendido como processo de obtenção de informações sobre os resultados das ações de manejo sobre o meio ambiente. ”O monitoramento tem que ser entendido como parte integrante do próprio manejo florestal sustentável, como ferramenta para a melhoria contínua, assim como para avaliar se as práticas estão, gradativamente e no longo prazo, degradando o solo, alterando o ciclo de nutrientes e, portanto, o potencial produtivo do solo, ou ainda degradando o funcionamento hidrológico das microbacias hidrográficas”, afirma. Ele lembra ainda que deve ser levado em conta a própria diversidade natural da paisagem como clima, solo, geologia, geomorfologia e vegetação. “Em cada região, todas essas manifestações e as especificidades locais vão ser diferentes, o que implica reconhecer que nunca haverá um receituário que seja de aplicação universal”, completa. Para acessar a íntegra do documento “A Silvicultura e a Água: ciência, dogmas, desafios”, visite: www.dialogoflorestal.org.br.

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